Há três anos resido na Califórnia. Desde que aqui cheguei tive oportunidades incríveis de conhecer lugares lindos que um dia vi pela TV e também de encontrar artistas, escritores, cientistas de quem sou fã há algum tempo. Todas estas visitas e encontros colorem meu álbum virtual nas redes sociais. As pessoas menos maduras tendem a imaginar que estes momentos luminosos fazem parte de meu cotidiano, como se eu não fizesse nada mais, apenas passear, tirar fotos e encontrar celebridades.
A verdade é que estes são apenas momentos de fuga, de escape das intensas horas de aulas, palestras e intermináveis leituras. Entretanto, o estresse que experimento é algo que consigo controlar, está dentro dos meus limites, pois apesar de distante das pessoas que amo, aqui tenho o apoio de amigos, professores e colegas estudantes. O que, infelizmente, não é verdade para todos que se arriscam a deixar a segurança de sua pátria.
Dulce Elena deixou a República Dominicana há exatos dois anos. Para ela estes foram os piores meses de sua vida. No primeiro ano em que se mudou para a pacata cidade de Lafayette, na Califórnia, ela descobriu que seu ex-namorado, Flaviano Javier, a traía com sua prima. À dor de estar longe do país, de sua cultura, de seu idioma, aumentou ao descobrir que vivera uma ilusão e que mesmo pessoas de sua família não eram tão confiáveis quanto imaginava.
Para afogar a dor, Dulce afastou-se ainda mais da família e colocou toda sua energia no trabalho. Trabalhava como garçonete em um restaurante até meia-noite, depois tomava ônibus e trem para chegar em casa. O dinheiro, a independência, a raiva e até os sorrisos amigáveis dos clientes do restaurante lhe deram forças para vencer o primeiro ano de vida estrangeira.
Em fevereiro, ela conheceu William, um americano casado, pai de três meninas. A mais velha de suas filhas, era apenas dez meses mais nova que Dulce Elena. No início havia paixão entre eles. Todavia, depois de ouvir a amante dizer “I love you”, William passou a alternar o desejo com o medo de um novo compromisso em sua vida.
Quando ele se sente angustiado, ele procura Dulce e desabafa. Ela o escuta pacientemente, faz perguntas que demonstram seu interesse em ajudá-lo ou, pelo menos, em entender os problemas de William. Ele nunca deixa o apertado apartamento em que Dulce vive, sem se sentir mais aliviado. Ao contrário, quando é ela que se sente triste e necessita de alguém para ouvi-la ou simplesmente apoiá-la, William atira contra ela todas as fórmulas de auto ajuda que conhece. Nestas ocasiões, Dulce Elena se sente ainda mais vazia, com a certeza de que não é compreendida por ninguém.
Acredito que o equilíbrio emocional de Dulce Elena depende de algumas decisões a serem tomadas. Em primeiro lugar, além do choque cultural, que pode funcionar como um elemento de isolamento social, ela também experimentou a descrença naqueles a quem ela confiava. Dedicando-se integralmente ao trabalho e gastando as poucas horas livres com o namorado, com quem ela não pode ser vista em público, não parece ser a melhor saída para criar vínculos sociais.
Some-se a isto, a quase inexistente possibilidade de que um homem casado esteja disponível para um verdadeiro relacionamento amoroso. A não ser que a situação dele mude o quanto antes, Dulce Elena não deveria alimentar a expectativa de se sentir amada e apoiada por William. Ela o tem como única pessoa a quem se sente conectada (embora a conexão seja apenas sexual). Ele a tem como um espaço de regozijo e aventura fora do casamento.
Dulce Elena precisa compreender que por ter ficado com William por necessidade emocional, ela certamente não o ama. Nem mesmo se sentiria atraída por ele, se estivesse em outra situação. No momento, ela acredita que o ama, sente como se o amasse e esquece que amor verdadeiro não fere, não deixa vazios.
Como uma mulher forte, Dulce Elena já conseguiu enfrentar o pesadelo americano por dois anos. Agora, ela precisa descobrir modos mais maduros de empregar seu tempo livre e energia. Quem sabe sair um pouco de casa, entrar em contato com pessoas de seu país ou pessoas com quem possa conversar em espanhol. Fazer amigos. Descobrir que a vida em um país estrangeiro pode ser muito mais interessante do que o vazio de promessas que não serão cumpridas.
Quanto a mim, é hora de voltar aos estudos…

junho 13th, 2011
Roque Neto 
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