Paro no sinal vermelho e olho para o lado direito. Vejo uma senhora de não menos que 60 anos balançar o corpo enquanto ouve o rádio em volume altíssimo no carro. Sorrio desconcertado e sigo meu caminho. Minutos depois, ao me aproximar de meu destino, vejo um homem de cabelos brancos trajando apenas bermuda e camiseta alongando-se. Estas cenas teriam passado desapercebidas se não fosse pela surpresa dos primeiros minutos de aula.
Começo de semestre. A professora adentra a sala de aula vestindo um sorriso. A primeira atividade é uma partilha rápida sobre as férias. Natal, ano novo, viagens etc. A última a falar foi a professora, que começou dizendo: “Minha companheira e eu ficamos em casa…” Eu que tinha o olhar preso às páginas de um livro, levantei a cabeça em câmera lenta e observei a reação de meus colegas. Ninguém pareceu se importar com aquela informação. Eu, no entanto, tinha uma cara de surpresa desconcertante.
Apenas depois da meia-noite, quando apaguei a luz e deixei meus pensamentos fluírem sem censura, foi que entendi meu incômodo. Minha surpresa não se devia ao fato da professora ser homossexual, mas à idade dela.
Depois de tanto lutar comigo mesmo para superar meus preconceitos em relação à raça, cor, credo e orientação sexual, me flagrei pondo algemas em idosos.
Não, Roque Neto, nem todos os idosos estão trancados em casa com agulhas de crochê nas mãos, uma tv diante deles e netos ou bisnetos fazendo barulho na sala ao lado. A população à cima de 60 anos é na sua maioria composta de mulheres e possui hábitos tão saudáveis quanto os mais jovens. Isto é verdade especialmente nos países mais desenvolvidos onde a expectativa de vida tende a crescer.
Não é suficiente que o mercado se adapte a esta nova realidade, criando produtos e serviços para os mais velhos. Ainda se faz necessário combater o preconceito silencioso de pessoas como eu, que tende a tratá-los como se eles fossem bebês necessitados de cuidado. Já até mesmo notei que, ao conversar com idosos, tendo a falar alto e a usar palavras mais simples, supondo que eles terão dificuldade de me compreender.
Finalmente, depois de tanto pensar sobre o tema e resolver escrever este texto, conclui que velho não é o vigoroso homem de 68 anos que sai para sua caminhada diária ao amanhecer. Velho é o comportamento de quem acredita que permanecerá jovem para sempre. Velha não é a senhora que cantarola e remexe o corpo enquanto dirige. Velha é a consciência de quem ainda tenta rotular os demais e esqueceu de reverenciar o diverso.
Afinal, se por um instante você esquecesse quantos anos tem, que idade você se daria?

fevereiro 24th, 2011
Roque Neto 






“Sabedoria é o prêmio daquele que foi capaz de enfrentar a dor sem mergulhar no desespero” por Roque Neto.




